Gestão e produção cultural na Baixada Fluminense – A trajetória do atual Secretário de Cultura de Japeri




Gestão e produção cultural na Baixada Fluminense – A trajetória do atual Secretário de Cultura de Japeri


Por Redação

Por Patrick Lima

Reunião com carnavalescos de Japeri para retornar com o Carnaval na cidade. Foto: Patrick Lima

No Dia de São Jorge, em 23 de abril de 1986, às 18h, ao som dos fogos disparados pelos devotos nas ruas, nascia Jorge Ribeiro Braga Jr., no Hospital São José em Mesquita. Hoje, em Japeri, o xará do santo vem fazendo um trabalho que muitos consideram milagroso, dado o histórico de ineficiência da gestão pública na cidade. Ele é o atual Secretário de Cultura.

Em uma tarde nublada e fresca, no Centro Cultural de Engenheiro Pedreira, distrito de Japeri, Jorge conversava com os carnavalescos da cidade, na busca por resgatar a Escola de Samba Magnatas, que está parada desde 2014. Neste clima de reencontro e proposição de ideias, fui recebido para a entrevista, que se deu dentro da biblioteca, rodeados por livros, e durou aproximadamente duas horas.

Jorge é ator, produtor cultural, professor, pesquisador e um dos fundadores do Grupo Código. Desde muito jovem, ele já demonstrava aptidão artística, quando tentava reproduzir as cenas que assistia na televisão com seus familiares. Em 2003, já com seus 16 anos, finalmente foi dado o primeiro passo de sua carreira profissional como artista, quando fez um teste para uma companhia de teatro em Nilópolis. O resultado positivo surpreendeu o jovem ator, que duvidava se passaria.

Em 2005, Jorge inicia o processo que o colocaria no centro da produção cultural de Japeri. Levado pelas oficinas teatrais do Nós do Morro, no Projeto Tempo Livre do SESC, ele se juntou com artistas da região e deu início ao Grupo Código, espaço cultural que resiste há 17 anos como um local de apresentações artísticas e de formação para crianças, jovens e adultos. Foi lá que o ator conheceu Rita Diva, atriz, pedagoga e agente social da região.

Rita desde muito nova se dedicou à transformação da realidade de Japeri, com a promoção da arte, cultura e educação. Foi movida por esses ideais que ela realizou diversas ações de cunho social, como se vestir de mamãe Noel no Natal para presentear crianças pelas ruas ou, a mais recente, na articulação de doações de alimentos para pessoas em situação de vulnerabilidade durante a pandemia. Seu reconhecido trabalho a tornou Secretária de Cultura da cidade em 2021, e Jorge Braga Jr. foi convidado para ser seu Subsecretário.

Naquele mesmo ano, em 01 de abril, Rita faleceu vítima de Covid-19, deixando um legado que inspira todos os trabalhos desenvolvidos pela Secretaria de Cultura, assumida por Jorge. Um de seus maiores desejos é poder homenageá-la com a construção do Teatro Municipal Rita Diva, no bairro em que ela nasceu, Nova Belém. “Acho que é um sonho possível, que eu vou fazer de tudo para realizar”, disse o secretário com olhar esperançoso.

Nos tempos livres em que não estava na Secretaria de Cultura, Jorge se dedicou à tese do seu doutorado, que foi defendida recentemente. O tema “Redes Teatrais e o Teatro em Rede da Baixada Fluminense” reflete o seu desejo de produzir conhecimento na região, que de acordo com ele passa por um processo de invisibilização. “Eu queria estudar, entender, pesquisar e de alguma forma ter esse registro que não existia, como uma forma de produzir esse conhecimento que era negado”, afirma.

Jorge reflete sobre temas que o movem, como a construção de bases culturais que permaneçam para além da sua gestão, formas de contornar as dificuldades causadas pelo Governo Bolsonaro e também os futuros desafios com a chegada da Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc 2, aprovadas este ano, que destinam verbas para execução de projetos culturais. Sua história de luta pela classe artística hoje reverbera através da Secretaria de Cultura de Japeri.

Jorge Braga Jr – Secretário de Cultura do Município de Japeri – Foto: Patrick Lima.

1) Como a Baixada Fluminense perpassa suas vivências e fazer artístico?

A gente sempre parte do lugar da falta, “ah, não tem teatro, não tem isso, não tem aquilo”, o que sempre me incomodou. Ainda em 2006, quando estava concluindo a faculdade de Produção Cultural, eu fiz uma monografia sobre o Teatro no Rio de Janeiro, mas tinha um capítulo que falava sobre o teatro na Baixada, e comecei a pesquisar e vi que não tinha muita coisa sobre. Desde lá, isso de alguma forma já aparecia para mim: a preocupação de levantar esse histórico e tentar entender as políticas culturais, principalmente para o teatro. Acho que nasce muito também dessa coisa da ausência, de você não ter as referências, a minha família não tinha costume de me levar ao teatro, eu fui criando isso através desses espaços.

Ao invés de fazer um movimento de repulsa, que acho que acontece na maior parte, eu nunca deixei de fazer teatro na Baixada. Fui tomado por um sentimento de: “se não existe algo aqui ou se existe pouco, como que a gente pode transformar essa realidade? Como que a gente consegue fazer algo que tenha qualidade também?”. Se falava muito na Baixada que o que tinha era pouco e não era bom. Isso me incomodava, mas esse incômodo me gerou esse movimento, “se a gente não tem, a gente vai ter. Se a gente vai ter, a gente vai fazer bem”.

Fomos criando formas de fazer e chegando na qualidade que esperávamos. Ter hoje as nossas produções, nosso modo de fazer sendo falado, sendo estudado numa universidade pública de teatro (Unirio), que não tem na Baixada, mas saber que eles estão estudando o que a gente fez ou o que a gente faz, acho que é uma resposta de que valeu a pena ter feito esse movimento e fortalecido também outros movimentos, como a Rede Baixada em Cena.

2) Você falou da Rede Baixada em Cena e a produção de conhecimento na Baixada. De onde partiu a ideia de falar sobre redes teatrais na região e como foi o processo de pesquisa para sua tese de doutorado?

Na graduação, em 2006, eu já vi que tinha uma coisa relacionada ao teatro da Baixada e me incomodava não encontrar muitas fontes, era um processo de invisibilização mesmo. Como se não existisse, as pessoas não falavam sobre, ninguém estudava isso, a gente só tinha um texto do Ediélio Mendonça, de Caxias, mas que falava de um processo cultural mais amplo, não só de teatro.

Na pós-graduação já falei mais especificamente do trabalho do Código, justamente sobre ter esse contato com a comunidade, com o teatro comunitário, essa questão de trazer as problemáticas locais para a cena. Como falei, no início eu fazia muita coisa de reprodução de filme, de novela, que era o que a gente tinha acesso. Já com o teatro, começava a trazer as nossas questões para a cena, para serem debatidas, apresentadas e reformuladas.  Na pós-graduação fiz sobre o “Des-silenciamento dos espaços populares”, como o teatro poderia ser uma ferramenta de des-silenciar os espaços, essa briga também com a grande mídia que não noticia o que acontece nesses espaços. Então, como que o teatro pode ser um veículo para isso?

 Já no mestrado, eu falei sobre os Pontos de Cultura da Baixada, porque o Código foi um Ponto de Cultura. Sempre tive isso no meu radar, e pro doutorado foi um desafio de primeiro pensar o que pesquisar. A princípio eu queria ir pela história do teatro da Baixada, porque fui tendo acesso a algumas informações de que houve um movimento muito forte do teatro na década de 70 em Nova Iguaçu, sobretudo em Caxias, com muitos teatros de rua. Eu queria estudar, entender, pesquisar e de alguma forma ter esse registro que não existia, como uma forma de produzir esse conhecimento que era negado. E mais especificamente sobre as redes, porque a gente participava da Rede Baixada em Cena com o Código.

Eu tive acesso a essa forma de organização que é a rede, fui pesquisar sobre e descobri que não é uma coisa que só existe aqui, existe em outros lugares na América Latina, na Europa. Isso me instigou a entender quais são as diferenças desses conceitos de rede aqui no Brasil e lá. Eu fui me aprofundando e cheguei nessa concepção de Redes Teatrais e depois entendendo que existem outras categorias, como redes de grupos e de artistas, ou redes de espaços. Aí surgiu a tese que foi defendida este ano, tem pouco tempo.

3) Pensando naquele jovem de 16 anos que começou a pensar profissionalmente o teatro até agora, o que você avalia que mudou na Baixada?

O Código pegou um momento muito efervescente de políticas culturais, porque em 2005 tinham dois anos que o presidente Lula tinha entrado no poder, então pegamos um momento que tinha um Ministério da Cultura forte e que haviam editais. Havia um estímulo, todo um cenário que fomentava isso. Mas depois houve um momento muito ruim, que acho que ainda estamos um pouco, em nível nacional. Agora é o momento de retomada.

Com a Rede Baixada em Cena, com o sucesso desses grupos, acho que houve uma “explosão”, vamos chamar assim, de outros grupos porque perceberam que tinha continuidade. Na pesquisa eu observei que muitos grupos pararam porque não tinha continuidade de políticas públicas. As pessoas ou iam para o Rio de Janeiro ou iam para fora do país para estudar e não voltavam, ou, se voltassem, iam para o Rio também. Nesse período de 2005 para cá, os grupos ficaram mais fortes.

4) Como você avalia os impactos da política do Governo Bolsonaro na cultura?

Eu acho que houve uma caça às bruxas, de tentar acabar com o que vinha sendo construído, tanto é que o governo Bolsonaro quando assume, a primeira coisa que faz é acabar com o Ministério da Cultura e transformar em Secretaria especial vinculada ao Ministério do Turismo. E aí a gente vai perceber como era a estrutura do Ministério da Cultura antes, muito mais articulada, pensando na ação cultural, pensando na cidadania cultural.

Há esse momento, de 2016, 2018, que é o ápice, em que vão diminuindo os incentivos na cultura. Os grupos, as organizações vão sentindo esse baque também, mas acho que com a Lei Aldir Blanc, uma vitória dos deputados alinhados com a área da cultura, a gente conseguiu ver uma espécie de retomada. E agora com a Lei Paulo Gustavo a gente tem um caminho, uma perspectiva boa. Temos também política permanente com a lei Aldir Blanc 2, que vai permitir esse recurso fundo a fundo, por 5 anos. É uma Conquista da base, dos agentes culturais.

Mas em relação ao teatro da Baixada, a gente vê que há vários impactos. Em relação à linguagem vemos uma diversidade maior, uma procura por uma pesquisa única ou uma pesquisa particular de cada grupo. Víamos durante muito tempo uma reprodução dos clássicos, de filmes infantis, ou a reprodução do que dava certo no Rio, da comédia fácil.  E a gente vê que o teatro da Baixada Fluminense vai se fortalecendo em quantidade e em qualidade.

Nesses editais públicos os grupos começam a ter mais espaço. Tem várias conquistas que ajudam a entender isso, por exemplo o próprio código em 2009, quando tem um apoio da Secretaria de Cultura do Estado; em 2013 tem novamente o Código como Ponto de Cultura, outros grupos da baixada também. Em 2014 com Patrocínio da Petrobras, sendo até hoje único grupo de teatro da Baixada que teve esse patrocínio para a manutenção.

Vemos outros grupos também conseguindo outros espaços. A Companhia Cerne, de São João de Meriti, tendo apoio do Itaú cultural, um edital a nível nacional. A Rede Baixada em cena em 2017 conquistando o Prêmio Shell, maior prêmio de teatro do Brasil. Em seguida Leandro Santana da companhia Queimados em Cena sendo indicado a melhor ator, um ator de teatro da Baixada com um espetáculo de teatro produzido na Baixada indicado a melhor ator! E recentemente o próprio Leandro que foi indicado no prêmio Shell, agora foi convidado para ser júri. Então um ator com militância de teatro na Baixada estar no júri do Prêmio Shell é uma característica que mostra um pouco desse desenvolvimento.

5) Todas essas conquistas que você falou passam pelo Poder Público. Qual legado você quer deixar como Secretário de Cultura de Japeri?

A gente já traz um pouco desse aprendizado de rede, esse aprendizado de coletivo, de grupo. Acho que é tentar passar isso um pouco para os agentes culturais da cidade. É independente de estarmos ou não na gestão, uma coisa que fica para a cidade, essa articulação entre as pessoas. No caso, quando eu entrei no ano passado, a gente não conhecia todo mundo que fazia cultura e arte na cidade, então foi uma das primeiras coisas que fizemos, na verdade com a Rita. A Rita que foi secretária e faleceu por conta da Covid-19. Uma das primeiras coisas foi fazer um cadastro de mapeamento, para tentar entender quem são as pessoas. Nós tentamos fazer algo para entender qual é o perfil da cidade, quem faz cultura. É um cadastro que ainda está permanente, ainda está aberto. Eu acho que isso é um legado importante, a informação. Quando temos a informação, a gente consegue gerenciar, gerir melhor, principalmente na questão pública.

Em relação também aos editais, de estar lançando independente da lei Aldir Blanc. Lançamos também o edital de programação para a festa da cidade, pela primeira vez, que era uma demanda. É ter essa escuta em relação aos agentes culturais. Fizemos a conferência, encontros setoriais, que é também fazer essa articulação entre os pares, porque uma coisa é a gente discutir a cultura com todo mundo, o que é muito bacana, mas uma outra coisa é o pessoal do artesanato pensar em suas particularidades, o pessoal da dança pensar suas particularidades, do teatro, do audiovisual, da cultura popular… Que aí conseguimos qualificar o debate, trazendo demandas mais reais, senão fica muito no ilusório.

Pode-se dizer também como legado que os agentes culturais possam acreditar mais no poder público, em relação à realização. Tem um histórico na cidade de pessoas que estavam na gestão e não eram ligadas à área cultural. Há uma mudança de paradigma e essa responsabilidade também de estar representando os artistas da cidade pela primeira vez. Estar representando a Rita, que foi uma pessoa super importante para a cultura da cidade, de certa forma também o Código, que hoje não faço mais parte, mas que é de onde eu vim, onde foi minha base. Então, estou ali de alguma forma representando essas experiências, essas vivências. Acredito que estar na gestão pública agora é uma oportunidade de pegar toda essa bagagem da sociedade civil e aplicar.

6) Para encerrar, me conte um sonho possível, algo que te movimente na vida.

Outro dia até falei com a prefeita sobre isso, eu acredito que quando a gente fala, verbaliza, a gente coloca as coisas no mundo. Se ficamos só pensando, aquilo fica muito no nosso campo das ideias. Cada vez mais acredito que os sonhos se realizam, até brinco com a minha terapeuta, falo que a gente tem que ter muito cuidado com as coisas que desejamos, porque elas acontecem.

Então, colocando mais uma vez no mundo, vou falar aqui também. Eu tenho um desejo muito grande, que sozinho não conseguiria, mas é o desejo de que cada bairro da cidade tenha um espaço cultural. Eu sei que é uma luta muito grande, mas se a gente tivesse cada bairro com um centro cultural, com oficinas, com exibição de filmes, biblioteca, faríamos uma cidade muito melhor, dando esse acesso para as pessoas de forma gratuita.

Pode falar mais de um sonho? Eu vou falar mais de um. O nosso Teatro Municipal Rita Diva, esse vem na frente da utopia de ter um espaço em cada bairro. A gente ter um teatro em Nova Belém, no bairro onde ela nasceu, onde ela foi criada, no bairro onde ela trabalhou. A gente está tentando, estamos fazendo de tudo para conseguir. Acho que é um sonho possível.

Espaço cultural onde aconteceu a entrevista. Foto: Patrick Lima