



Por Marcos Eugenio
Como resenhar Clarice Lispector? Como resenhar uma escritora que nos traz sempre um grande mistério em sua escrita? Uma escritora que nos faz – através de seus livros – entrar numa viagem vertical e vertiginosa para dentro de nós mesmos, numa espécie de fuga de fora para dentro. Seus personagens enigmáticos, abismados com suas próprias existências, na busca de um mistério que tentamos e ousamos descobrir por meio de uma aventura tão intimista e solitária que é a leitura.
Como resenhar um romance que começa com uma virgula (,)? Sim, o romance inicia com essa pontuação que nos indica um respiro; uma pausa entre expressões e orações dentro da escrita. Logo, em seu início, o narrador nos chama a atenção, pois há acontecimentos que antecedem a história que começamos a ler, e, ele segue iniciando “,estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera…” E eis que as trivialidades surgem como um ponta pé para aquilo que a princípio, nos soa tão comuns mas que irão se aprofundando, na medida que a narrativa avança.
Lorelay, cujo apelido Lóri lhe é atribuído, é uma jovem herdeira que mora num apartamento amplo de frente para o mar na Zona Sul do Rio de Janeiro. Embora trabalhe como professora do ensino fundamental, seu sustento provem da mesada que lhe é enviada pelo pai. É uma mulher alienada, presa a um passado glamuroso. Vive uma vida solitária, tendo apenas como amiga, uma cartomante que não lhe cobra as consultas.
Ela passa a ter encontros com Ulisses, um professor de filosofia, aparentemente, mais velho que ela. Ele a observa e passa a olha-la de um modo mais questionador quanto ao modo de ser de Lóri. A partir daí, o romance se abre para camadas mais profundas, pois o dialogo que se trava entre os dois personagens, os levam a refletir sobre suas próprias existências, seus modos de ver e estar no mundo. E aqui, esse aprofundamento é direcionado a Lóri. Tão solitária e alienada de si, ela é uma mulher fechada para o mundo, e, ver nisso uma forma de se proteger da dor; da dor de existir. Logo, Ulisses passa a desafia-la, incentivando-a a fazer uma expedição interna; uma busca por si mesma. Para ele, ela deveria se permitir sentir o mundo e a si mesma. Isso pode ser percebido na seguinte passagem: “O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam – ela havia por medo cortado a dor. Só com Ulisses viera a aprender que não se podia cortar a dor – senão se sofreria o tempo todo. E ela havia cortado sem sequer ter outra coisa que em si substituísse a visão das coisas através da dor de existir, como antes. Sem a dor, ficara sem nada, perdida no seu próprio mundo e no alheio sem forma de contato”.
A partir daí, eles passam a viver por meio de um acordo proposto por Ulisses, o qual consistia no fato de que ele apenas a teria como mulher, quando ela estivesse pronta; quando ela conseguisse realizar a travessia proposta por ele. E aos poucos ela passa a entrar nesse processo. O amadurecimento de Lóri corre em paralelo a sua busco por Deus.
Mesmo sendo um processo muto difícil para Lóri, pois tudo isso lhe custava muito subjetivamente, ela se permitiu como percebido na seguinte passagem: “Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentia vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda que já está começando a me doer como uma angustia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não tem coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo”.
Existe um tempo de expectativa para que o “Eu”, de ambos, e em especial o de Lóri, esteja pronto para se unir ao “outro”. Assim, podemos entender a referência a Ulisses, de Homero, e a espera longa de Penelope na ilha.
O romance é narrado em terceira pessoa com a presença do fluxo de consciência como um recurso para atingir as profundezas por meio da linguagem. Além disso, há relações, místicas e míticas como ponte de referencia na construção do romance, tornando-o – ao mesmo tempo uma leitura simples – uma escrita cheia de enigmas, tragando o leitor para as complexidades da vida humana.
“O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas.”