



Por Marcos Eugenio
Num passado não muito distante, na verdade, bem próximo, diga-se de passagem, vivemos uma pandemia provocada pela Covid 19. Fomos assolados por um vírus que causou milhões de mortes. Incontáveis vidas foram apagadas e desapareceram diante de nossa impotência sobre àquela vastidão pandêmica. Pensar nos processos criativos durante uma vida em quarentena pode soar impossível ou minimamente descabível. Porém, talvez, seja em momentos como esses que a arte surge diante de nós como uma forma de resistência.
Assim, o escritor Julián Fuks se pôs a tarefa desafiadora de escrever crônicas durante a pandemia, resultando no livro “Lembremos do futuro – crônicas do tempo da morte do tempo” (Companhia das Letras 2022). Nele, o autor se debruçou sobre a densa atmosfera presente em um contexto onde a incerteza, a morte e o medo, pairavam no ar. Como e o que escrever diante de uma tragédia tão gigantesca?
Escrever contra o assédio da morte, foi uma maneira de buscar diante do tempo da morte do tempo, um espaço onde a vida resiste. E foi nesse espaço que Julián encontrou inspiração para as suas crônicas. Na primeira crônica do livro, a qual é intitulada “Pensamentos da vida contra o assédio da morte”, ele nos introduz seu olhar atencioso sobre o contexto presente “Ali fora, o tempo não se ouvia, não passava de uma brisa sutil que mantinha intactas as janelas. Nada no céu límpido, nada nas ruas vazias anunciava a dimensão da tragédia, a profusão das vítimas, a vastidão das perdas. Pode ser silencioso o medo, eu descobria, pode ser silenciosa a morte massiva. Como um bombardeio que vitimasse centenas num só dia, e logo milhares num só dia, mas um bombardeio inaudível, o mais discreto ataque que já atingiu a humanidade. O tempo era só silêncio e iminência de coisa nenhuma.”
Logo adiante, percebendo-se diante do inevitável e não menos indignado, porém disposto a encontrar alguma beleza diante de um cenário de morte lastimável, o autor passa a se atentar ao seu cotidiano simples, a vida em casa com sua família e aos pequenos acontecimentos que de alguma forma conseguem se manter imunes diante de um vírus tão brutal que os cerca. A partir de então, suas crônicas vão ganhando outras tonalidades, seguindo fielmente a sua resistência. O elogio à casa, o elogio ao abraço, a saudade de rever os amigos, saudades do carnaval e do samba como manifestações de potencialização da vida em sua efervescência cultural, colorem as linhas que se seguem página por página. A percepção das pequenas alegrias em meio a catástrofe coletiva, passa a nutrir de esperança as crônicas que compõem o livro.
Além disso, e não menos importante, não passou despercebido sobre os olhos do cronista, o cenário político, no qual se contextualizava a pandemia. Fuks expressa elegantemente, o seu olhar crítico sobre o governo vigente, as medidas negligenciadas e a disseminação desenfreada de informações inverídicas que contribuíam para o aumento da catástrofe no país.
Já nas últimas cônicas, o otimismo e a esperança no futuro vão dando tonalidades de expectativas possíveis, simbolizando o triunfo, para o qual nos aponta o livro. A crônica “O fim do fim do mundo”, nos aponta esse horizonte “O fim do mundo está chegando ao fim. Por isso, por esse paradoxo que se faz vivido a palavra “fim”, não chega a dar conta do sentimento, quase que o contradiz. Vínhamos presenciando um mundo saturado de fins, carregado de destruições cotidianas e prenúncios mortiços. Um mundo em que o fim acontecia por toda a parte, ou podia acontecer a qualquer instante – sendo essa, justamente, uma das definições modernas para a noção de crise. Se lentamente vamos saindo dessa crise é porque já não vislumbramos alguns dos desfechos mais soturnos, ou porque já o enfrentamos em nossas piores noites, e agora começa a amanhecer o dia seguinte. O que desponta, então, não é um desfecho, e sim um início possível, uma aurora de contornos indistintos.”
“Lembremos do futuro” não traz pinceladas de uma romantização diante da vastidão dolorosa que nos deixou a pandemia ao nos trazer um pouco de cor em suas crônicas, mas uma prova de que a arte e a literatura são capazes de sobreviver e resistir mesmo em momentos mais assoladores. As crônicas reunidas nessa obra, nos proporciona – com sua prosa poética – a esperança na lembrança de um futuro possível, mas também de um passado que não podemos esquecer.