Nossos valores sentimentais




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Marcos Eugenio

Escritor e produtor cultural. Já participou em saraus como Batalha JPR e Sarau da Diversidade. Teve crônicas publicadas no livro Pout Pourri Poético e no jornal O Japeriense. Hoje, escreve para o Japerionline.

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Nossos valores sentimentais


Por Redação

23/03/2026

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Ainda menina, com apenas oito anos de idade, Nora (Renate Reinsve), escreve uma redação como trabalho escolar. O trabalho solicita que o aluno escreva sobre um objeto significativo. Nora, escolhe escrever sobre sua casa e como ela era importante para a sua infância e de sua irmã Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaa). Sua redação se torna uma grande prosopopeia ao enxergar sua casa como se fosse mais que um membro da família, mas seu corpo. Todavia, nesse corpo havia uma grande rachadura, a qual, sobre sua
observação, deixava a casa torta. E aqui, surge uma metáfora imprescindível para a narrativa sobre a qual assistimos.

Assim, inicia-se Valor Sentimental (2025), filme dirigido pelo cineasta norueguês Joachim Trier. O longa, com sua vibe bergmaniana, se desenvolve num drama envolvendo a relação de um pai com suas duas filhas. Mas aqui, caro leitor e cara leitora, quero me ater a redação de Nora como ponto de diálogo para esta crônica, considerando que o misto de metáfora e sinestesia de seu texto, nos leva a uma viagem às nossas próprias prosopopeias.

Penso na casa de Nora com suas sensibilidades, bem como a rachadura que a atravessa e me deparo com as rachaduras da minha própria casa. Não apenas como uma simples rachadura, mas como uma fissura a compor minha história e tudo o que pode ser contada através dela, pois foi nessa casa que passei a maior parte da minha vida.

Lembro que cheguei nela no final da minha infância, quando ainda não havia rachaduras e sim um processo de construção ainda um tanto rudimentar. Lembro de meu pai colocando os primeiros tijolos do muro quando eu ainda era um garoto. Enquanto a casa ia sendo construída, íamos nos ajustando como família naquele novo lar e tudo o que viria pela frente.

Essa casa, sobre a qual me encontro escrevendo debaixo do seu teto, foi e continua sento testemunha de muitas transformações. Muitas celebrações. Muitas chegadas e partidas. E muitas perdas significativas. É possível lembrar-me dos bolos gigantes que minha fazia para as comemorações de aniversário e que ela fazia questão de festejar. Lembro da minha avó, fazendo empadinhas de queijo e solicitando minha ajuda. Lembro dos dias em que eu acordava cedo para ir á escola e minha avó já se encontrava acordada, ouvindo sua rádio favorita de madrugada, enquanto preparava meu café da manhã. Foi debaixo do teto dessa mesma casa, que ela faleceu às vésperas de completar seus noventa e oito anos de idade. E cinco anos depois, minha mãe também deixou essa casa para nunca mais voltar.

Hoje, ao andar por essa casa, posso sentir impressa em cada canto as cenas dessas lembranças que habitam em mim. A memória, sobre a qual carrego, não permite que elas desapareçam. Nos dias de chuva, quando surgem as goteiras, fico a pensar se são simples goteiras a vazar pelos cantos, ou se a casa, assim como eu, chora pela saudade que nos segue enquanto o tempo passa.

O tempo, que é “um dos deuses mais lindos e compositor de destinos”, como nos diz uma bela canção de Caetano, traz ao meu olhar as rachaduras, as goteiras, as paredes descascadas e a corrosão que essa casa é atravessada enquanto o tempo passa, e, ainda assim, ela permanece a mesma. E ao tempo, “peço-te o prazer legitimo e o movimento preciso” para conservar os meus valores sentimentais.

Marcos Eugenio