



Escritor e produtor cultural. Já participou em saraus como Batalha JPR e Sarau da Diversidade. Teve crônicas publicadas no livro Pout Pourri Poético e no jornal O Japeriense. Hoje, escreve para o Japerionline.
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Por Marcos Eugenio
Em 1996, Adriana Calcanhotto lançou seu quarto disco, intitulado MARÍTIMO, título que incorpora uma composição do MAR (tema tratado na maioria das canções do disco) e RÍTIMO (uma nova experimentação em sua discografia, na qual envolvia a adição de elementos que tornasse seu álbum mais dançante). Essa obra-prima é encabeçada por uma canção, cujo nome Parangolé Pamplona me era totalmente estranho no meu primeiro contato com tal canção.
O Parangolé Pamplona você mesmo faz
O Parangolé Pamplona a gente mesmo faz
Com um retângulo de pano de uma cor só
E é só dançar
E é só deixar a cor tomar conta do ar
Verde
Rosa
Branco no branco no preto nu
Branco no branco no preto nu
O Parangolé Pamplona
Faça você mesmo
E quando o couro come
É só pegar carona
Laranja
Vermelho
Para o espaço estandarte
“Para o êxtase asa-delta”
Para o delírio porta aberta
Pleno ar
Puro hélio
mas
o Parangolé Pamplona você mesmo faz
Do que se trata esse tal Parangolé Pamplona? Em que consiste ser feito com um retângulo de pano? Afinal de contas, o que Adriana quer dizer com isso, me indagava.
Tempos depois viria a saber que se tratava de uma obra de Hélio Oiticica, um dos grandes nomes do Movimento Neoconcreto Brasileiro.
A importância de Hélio Oiticica para a arte brasileira e mundial é hoje incontestável. Seu trabalho consiste em trabalhar sempre o novo como algo realmente novo, utilizando elementos, anteriormente trabalhados, como algo cada vez mais novo. A única coisa que ele nega é a estagnação da arte no mesmo ponto.
Seguindo essa trilha, Hélio Oiticica foi se encaminhando para a consciência de que o quadro deveria ser ultrapassado. Para ele, a única forma de salvar a pintura era ela sair do quadro para outro espaço. Espaço este, que serviria como lugar de interação como as galerias de arte.
Sua proposta de saltar a pintura do quadro para um outro plano espacial, fez de Oiticica um dos maiores artistas de sua época. Na concepção de Hélio, pintura é cor e a cor tem estrutura. E a estrutura cor não depende necessariamente do quadro. Fazer do observador mais que um contemplador, mas um participante da obra apresentada, é no mínimo esplendoroso.
Mas o que pretendo aqui, é criar um diálogo de compreensão entre o Parangolé Pamplona de Adriana e os ideais estéticos e artísticos de HO.
No verso “É só deixar a cor tomar conta do ar”, percebe-se os Bilaterais de Hélio e seus Relevos Espaciais, que propunham a percepção das cores e suas variações fora do quadro. Esses Bilaterais eram suspensos no ar, proporcionando ao observador a percepção de cada cor apresentada e suas variações por meio de sua posição nas sombras e em reflexos de espelhos.
Em outros três versos “É só pegar carona / Laranja / Vermelho”, é possível ainda a partir dos Bilaterais, acompanhar o tratamento de percepção das cores que HO propunha. Para ele, a cor possui ondas de gradação, que quase não se percebe nas pinturas. Desta forma, através dos Relevos Espaciais, ele irá introduzir essa gradação através de escalas evolutivas da cor, passando pelo amarelo, laranja e vermelho, formando ondas de cores que vão se aquecendo no trajeto evolutivo de sua percepção.
Com o verso “Branco no branco no preto nu”, Adriana refere-se à utilização dos Parangolés por negros nus. É possível notar também, a associação que Oiticica faz sobre o estado de invenção à cor branca e ao “branco no branco” de Malevich (uma pintura de 1918 que é um quadro todo branco, inclinado em relação ao primeiro). “[…] o branco não é só um quadro de Malevich, o branco com branco é um resultado de invenção, pelo qual todos tem que passar; não digo que todos têm que pintar um quadro branco com branco, mas todos têm que passar por um estado de espírito que eu chamo branco com branco, um estado que sejam negadas todo o mundo da arte passada, todas as premissas passadas e você entra no estado de invenção.”
A partir daí, o artista começa a trabalhar com o conceito de “transobjeto”, um objeto que migrou de uma função para outra, criando assim os Bólides, potes de vidro contendo pigmentos em cor, visando a introdução do corpo em experimento com os pigmentos. Deste modo, o participante passa a integrar ainda mais a obra, pois para Oiticica não é apenas colocar o objeto no contexto da arte, e sim usá-lo, alterá-lo, para que ele constitua o Bólide.
Já nos versos “Para o espaço estandarte / Para o êxtase asa-delta / Para o delírio porta aberta”, Calcanhotto nos leva a uma viagem vertiginosa e delirante as obras espaciais de HO. Seja nos Penetraveis e nas Cosmococas e especialmente nos Parangolés, é possível adentrarmos de forma palatável e ao mesmo tempo experimental, os ideais do artista, que traz uma reflexão sobre a percepção do espaço sobre o corpo, na qual se desdobra em sua intervenção para uma compreensão mais contemporânea da transitividade, seja ela no campo puramente estético, político e social.
Partindo desse olhar sobre a transitividade dos corpos, fica mais claro nos versos “E é só deixar a cor tomar conta do ar / Verde / Rosa”, em que estas cores que representam a Estação Primeira de Mangueira ao mesmo tempo representam na biografia de Hélio, sua transitividade sobre os espaços Zona Sul e Favela, que o nutril de olhares perceptivos quanto a variação dos espaços dentro de sua intervenção.
É neste contexto que HO cria os Parangolés. Reza a lenda que em uma de suas idas a Mangueira, ao descer do morro, se deparou com um mendigo dormindo sob uma lona retangular, na qual estava escrito a palavra Parangolé. Esse acaso levou HO a utilização dos Parangolés como uma incorporação da obra ao corpo. Um exemplo dessa reação, pode ser notado pela exposição Opinião 65 ocorrida no MAM, quando Oiticica adentrou ao museu acompanhado da bateria da Mangueira e foram expulsos do local. Como protesto, HO juntamente com a bateria da escola realizaram uma performance no jardim do MAM, utilizando os Parangolés, promovendo uma contestação, a partir de sua obra sobre a aceitação da instituição, não apenas de uma nova estética, mas da recepção de outras classes em seu espaço.
Na minha percepção, nutrida pela canção composta por Calcanhotto, o Parangolé de Hélio Oiticica é uma das maiores invenções da arte brasileira no sentido experimental de percepção do próprio corpo e sua integração com o espaço em que ocupa. Essa participação expressa nos primeiros versos “O Parangolé Pamplona você mesmo faz / O Parangolé Pamplona a gente mesmo faz / Com um retângulo de pano de uma cor só”, nos dá a oportunidade e a possibilidade de sermos mais que co-participantes ou participantes de qualquer obra de arte, mas ser o criador da própria obra. Ser a obra em si.
Compreendo assim, não apenas uma reflexão estética da interatividade do corpo e do espaço como obra e sua representatividade artística, mas também um olhar sobre a transitividade do pensamento contemporâneo e sua efetividade de influência cultural. Esse espaço entre o ser e o estar. O hibridismo das linguagens. A possibilidade de ocupar dois espaços ao mesmo tempo. O espaço onde tudo é cabível e mutável.
Não há como negar neste desague, a importância de Hélio Oiticica para a arte e para hemisférios que vão além dela. Seu olhar sobre o significado da marginalidade: “Seja marginal Seja herói.” Na desmistificação da “pureza” dentro do espírito da criação. E no papel institucional dos museus como espaços de interatividade e não de apropriação. “Museu é o mundo.” Diz HO.
Para mim, a grandiosidade de Hélio e sua obra, está em sua perpetuação, que vai agregando outras linguagens e quantas mais estiverem borbulhando neste MAR antropofágico, que Adriana introduziu com muita perspicácia ao RÍTIMO de seu disco, que mesmo vinte anos depois de seu lançamento, nos faz pegar carona no ar de cores em êxtase e delírio, seja verde, seja rosa.
E neste embalo, sigo dançando com o Parangolé de Hélio Oiticica e o Parangolé Pamplona de Adriana Calcanhotto.
Pleno ar
Puro hélio
mas
o Parangolé Pamplona você mesmo faz