O encontro do Eu com o Eu para o Outro




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Marcos Eugenio

Escritor e produtor cultural. Já participou em saraus como Batalha JPR e Sarau da Diversidade. Teve crônicas publicadas no livro Pout Pourri Poético e no jornal O Japeriense. Hoje, escreve para o Japerionline.

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O encontro do Eu com o Eu para o Outro


Por Marcos Eugenio

18/04/2026

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Por Marcos Eugenio

No livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector, publicado em 1969, os personagens Lorelay (uma jovem solitária) e Ulisses (um professor de filosofia), ao se conhecerem, passam a ter encontros casuais, nos quais o conhecimento profundo sobre eles, especificamente da jovem Lóri, torna-se o grande mote do romance. Como alguém que passou a se fechar para o mundo para evitar a dor; a dor de existir, Lóri se tornou uma mulher alienada de si mesma, o que deixa o seu admirador Ulisses, um tanto intrigado. Entretando, como alguém que nutri afeições pela moça, ele propõe a ela, que tenha um encontro consigo mesma. Segundo ele, para tê-la como mulher era necessário que ela estivesse pronta.

Penso nesse romance de Clarice, e percebo o grande desafio que cada um carrega no processo de viver, que é o encontro consigo. Quando o Eu encontra o próprio Eu? De que maneira esse Eu tão singular suporta o desafio de desbravar as profundezas do oceano que é o próprio Eu? Até que ponto é possível suportar virar a pele do avesso para conseguir enxergar milimetricamente a separação entre a epiderme e a derme? Ou seja, a camada que nos separa do mundo interno para o externo. Mais que isso, possuir a ousadia de mergulhar em camadas mais profundas até chegar a uma unidade de DNA? Quem sou eu quando o silêncio se impõe? Quem sou em quando as luzes se apagam?

Descobrir “Como me torno quem eu sou”, filosoficamente, pode ser entendida como uma tarefa ética do Eu para com o próprio EU. Ao mesmo tempo, essa tarefa torna-se difícil, e, por isso, desafiadora, pois este Eu quem procuro encontrar, pode me ser tão desconhecido, tão estranho; um estrangeiro em si mesmo, que diante dele posso me deparar com um abismo. Todavia, pode ser apenas um território desconhecido a ser explorado e observado por um olhar até então distraído pela evocação do mundo. Nesse sentido, é compreensível a postura de Lóri. Talvez, fechar-se para o mundo não seja uma alienação de si mesma. Pelo contrário, pode ser uma alienação referente ao mundo. Portanto, ela pode estar mais ciente de si do que possamos imaginar.

Contudo, há um contexto ao qual o romance se insere. A alienação de Lóri sobre si mesma está relacionada a falta de contato com o mundo a sua volta. Logo sua alienação parte de uma falta de referência, pois quem é Lóri sem o mundo que também a constitui? Pode-se provavelmente concluir, que o que falta a Lóri, é o encontro com o Outro. Mas para a personagem, esse encontro se daria num encontro com Deus, onde a narrativa é construída reunindo elementos místicos e míticos. E após passar por essa travessia, Lóri consegue encontrar a si mesma e encontrando-se com o Outro (Ulisses).

E quando se dá esse encontro com o Outro?

Em uma canção intitulada X-tatic processes, Madonna diz: “Eu não sou eu mesma quando você está por perto / Eu não sou eu mesma em uma multidão”, evidenciando que ela só pode ser ela mesma quando está sozinha. E segue dialogando com Lóri “Jesus Cristo, você não quer olhar para mim? / Não sei quem eu deveria ser”. E conclui “Eu sempre desejei poder encontrar / Alguém tão bonito quanto você / Mas no processo / Eu esqueci que eu era especial também”.

Se o encontro com o próprio Eu, pode ser um encontro com um Eu misterioso e inacabado, como saber que este Eu está realmente pronto? Pronto para o Outro. E considerando que este Outro parte de um Eu que também se encontra de forma enigmática. Como pode este Outro também estar pronto para o Outro que deseja se encontrar? Logo, é possível perceber que este encontro não está dado. Ele pode ser uma construção em processo como cada Eu individual se encontra.

Por tanto, pode-se dizer que há um espelhamento inconcluso, pois Eu sou o Outro e o Outro é eu. Não há uma simetria que garanta a regra de um encontro. Não à toa, Clarice encerra o seu romance com dois pontos (:), evidenciando em sua narrativa, que há uma continuidade; uma espécie de enumeração de fatos que vão se somando na construção de algo indefinido como nos pode ser a própria vida.