


Por Marcos Eugenio

O luto é um dos atravessamentos mais difíceis pela qual podemos passar como experiência humana. Para alguns, ela pode ser traduzida e resumida em dor, choro e sofrimento. Para outros, pode ser uma fase de reflexão sobre a perda do objeto e o seu papel na vida desse outro. E há aqueles que podem – mesmo em meio a tudo isso – buscar formas de elaboração como a escrita, cujo processo se dá, consequentemente, por meio da linguagem.
Em 2016, o autor Tiago Ferro, perdeu uma de suas filhas com apenas oito anos de idade, acometida por uma gripe. Desde então, o escritor passou a escrever – a principio de forma experimental, usando a forma diário, por exemplo – como forma de elaboração desse luto. Entretanto, essa escrita foi ganhando fragmentações, levando o autor ao questionamento se tudo o que escrevera deveria vir a publico em forma de um livro. Até que o livro foi
lançado em 2018, pela editora Toda Via, intitulado O Pai da Menina Morta.
O livro é narrado em primeira pessoa. Seu narrador possui um tom vertiginoso ao narrar a história, considerando o fato de como o texto é todo fragmentado em espaço de tempos e acontecimentos. Em certos momentos, o narrador fala sobre si mesmo, contando tudo o que deseja fazer, como seu plano de fazer ioga, o carnaval, acontecimentos triviais como ir ao mercado fazer compras. Aliás, ele usa a quebra de ritmo narrativo, como fragmentação da escrita, como forma de desestabilização do tempo por meio de registros
de acontecimentos estáveis e instáveis. Um exemplo disso, pode ser encontrado na descrição de uma lista de compras que o narrador faz em meio as trivialidades contadas durante a narrativa.
[lista]
Do supermercado:
Leite, 6 garrafas
Torrada Wickbold integral
Água prata com gás, 3 garrafas se estiver por menos de R$ 1,99
Ficar firme
Cream cheese light
Abacate, tomate, cebola, coentro (para guacamole)
Cerveja Heineken, I fardo de 6 + 1 garrafa
Queijo para o café da manhã
Café solúvel
Etc
Tal fragmentação narrativa pode ser observada e entendida como uma forma de desromantização do luto, considerando que uma das marcas do narrador está relacionada a identidade e ao rótulo que ele carrega sendo O Pai da Menina Morta “Eu não quero ser O Pai da Menina Morta. Eu sempre serei O Pai da Menina Morta. Não estou procurando ou exigindo qualquer tipo de justiça. Eu simplesmente aceito a dor aguda na ausência. No vazio. Nós também somos feitos de espaços em branco. Nosso corpo não é uma massa
densa. É preciso lembrar disso”.
Ao mesmo tempo, o narrador não consegue se desvencilhar tão facilmente dessa identidade, uma vez, que não consegue fugir nem esconder a dor que carrega quanto a morte de sua filha. “Não deu tempo de parabenizá-la por ter entrado na História, na Arquitetura, Medicina, por ter decidido não fazer faculdade e ter largado tudo para ir morar em uma comunidade em Piracamba. Não deu tempo de brigar com ela porque ela estava se comportando como todo e qualquer adolescente. Não deu tempo de chorar
sozinho no banheiro depois de ter ido visitar o primeiro apartamento dela.
Não deu tempo de ver mês a mês a barriga dela crescendo. Não deu tempo de contar para ela que o meu médico havia dito que o melhor mesmo era a cirurgia, a quimioterapia acabaria comigo. Não deu tempo de vê-la chorar de dor e de raiva. Não deu tempo de enfrentar uma balada barulhenta, mas naquele ano ela e a irmã decidiram comemorar o aniversário juntas. Não
deu tempo de ver o primeiro fio de cabelo branco surgir na cabeça dela. Não deu tempo de ela me tratar como uma criança”.
O Pai da Menina Morta é um romance que pode ser sentido como um soco no estômago, tamanha intensidade que se sente durante sua leitura tão pulsante. Ainda assim, mesmo diante de uma narrativa fragmentadamente vertiginosa, pode-se perceber uma investigação por parte do próprio narrador, uma tentativa de investigação subjetiva das questões que ficaram após o luto. Uma tentativa do autor de se readaptar ao mundo.
Contudo, é um livro que pode dividir opiniões, pois pode haver quem considere que tais questões apresentadas numa narrativa um tanto autoficcional, algo que não seja tão relevante a nível de publicação, Por outro lado, pode-se dizer que é um livro corajoso, pois sua narrativa honesta, nos leva a refletir sobre a originalidade e autenticidade na literatura contemporânea brasileira.
Livro: O Pai da Menina Morta
Autor: Tiago Ferro
Editora: Toda via
173 páginas
2018