A fuga de fora para dentro




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A fuga de fora para dentro


Por Redação

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A experiência da leitura, assim como da escrita, sempre pode ser incorporada como fuga. Uma fuga da realidade, onde somos interpelados pela vida ordinária, onde a ficção se torna um lugar de escape, uma viagem para terras onde tudo é possível, e, sobre o qual, o livro pode ser, por meio da literatura, esse lugar de refúgio. Essa metáfora pode ser conferida em Uma fuga perfeita é sem volta (editora Record, 2016) da escritora e filósofa Marcia Tiburi. Nele, a escritora nos convida a entrar numa viagem junto com o personagem Klaus, que sai de sua terra natal na ilha de Florianópolis, no Brasil para Berlin na Alemanha em plena década de 1970.

Tudo começa quando Klaus ao ligar para sua irmã Agnes com o intuito de falar com seu pai e lhe parabenizar por seu aniversário, como costuma fazer uma vez por ano, durante quarenta anos, desde que havia deixado o Brasil. Enquanto ela lhe conta fatos de seu cotidiano, tais quais eram para Klaus irrelevantes, dera a ele – em meio às trivialidades que acabara de dizer – a notícia de que seu pai havia morrido e de que havia meses desde o acontecido. A notícia que a irmã lhe dera, juntamente como o modo como ela a deu, provoca em Klaus uma indignação tamanha, de maneira tal, que desencadeia em si, um estado de epifania, de modo a colocar em xeque tudo o que envolvia a relação que possuía com sua família e que estava em torno daquela ligação telefônica que se repetia anualmente. A partir daí, ele passa a relembrar toda a sua história, buscando um modo de ressignificá-la. Mais que isso, ressignificar a si mesmo, por dentro e por fora, numa fuga que pretende não ter volta.

O romance de Marcia Tiburi se desenha de maneira bastante curiosa. Uma curiosidade se encontra nas características do personagem, que vai se apresentando, na medida em que ele vai contanto sua história, cavando sua memória e se deparando com situações que o coloca diante de suas próprias complexidades. A gagueira, por exemplo, é um traço marcante. Ela sinaliza, entre outras coisas o silêncio que ele cultiva, ao mesmo tempo em que estabelece tentativas de comunicação com aqueles que se abrem para ele, como é o caso de Irene, a telefonista com quem Klaus solicitava as ligações que fazia para o Brasil e que se tornara sua amiga com quem assiste aulas de filosofia.

Outro traço marcante do personagem se encontra em torno do gênero, um mistério que se mantém durante toda a história, mas muito significativa para a fuga que ele pretende forjar. Aqui, fica evidente como as questões envolvendo sexualidade e gênero, foram bem trabalhadas pela autora. Como as características do personagem em relação a tais campos não são marcadas de forma determinada, essa complexidade vai se costurando aos acontecimentos que juntamente com a memória que o personagem explora, nos coloca a reflexão sobre a questão queer, enriquecendo ainda mais o romance.

Outra questão interessante a se perceber, e, não menos curiosa, é a da identidade presente na narrativa. Embora Klaus tenha nascido no sul do Brasil, mesmo sendo filho de descendente alemão, ele não possui características que possam evidenciar a herança de uma genética europeia, mesmo que o sobrenome Wolf tenha tentado formalizar tal herança. É interessante quando essa ironia se apresenta em seu cotidiano, enquanto vive em Berlin. Lá, seu nome não sobressalta sua aparência, que por conseguinte, não transparece a identidade de uma origem, que parece não possuir, uma vez que, estando no Brasil, não se parece brasileiro, e, estando na Alemanha, não se parece como tal. Deste modo, fica perceptível a ideia de não pertencimento atravessada em todo o romance. A falta de uma identidade que traga um sentimento de pertencimento é uma forte motivação para a inquietude do personagem, bem como para o distanciamento que ele estabelece com o mundo, através de seu olhar crítico. Como um funcionário que trabalha na chapelaria de um museu, ele observa com olhar crítico, seus frequentadores. Critica o olhar devorador dos turistas e do mundo transformado em museu. Questiona as relações de trabalho, bem como as relações humanas.

Entretanto, é a relação com sua família, a questão que lhe é mais cara. Desde a distante relação com sua mãe, que morrera louca, da precária ou inexistente relação com seu pai, um simples pescador das praias do Campeche, até sua irmã, com quem nunca conseguira se comunicar de fato. Sua família era a triste origem de uma terra fria que passara a ser sua existência. De uma infância pobre à dura adolescência vivida num seminário, onde aprendera desde já, a sobreviver à hipocrisia velada e a violência silenciosa, com exceção dos passeios que fazia no cemitério, onde aprendera a ler com a ajuda do seu João, sua experiência com a vida foi a de um estrangeiro. Estrangeiro, não é para Klaus apenas uma condição ou um estado, mas uma forma de ser, um ser estranho para o mundo e para si. Uma estranheza que só terá lugar mediante a fuga. A fuga que descobrirá, não de dentro pra fora, mas de fora para dentro. Não é a fuga de quem foge de alguma coisa, mas sim, a fuga da libertação de tudo o que não lhe representa, a libertação de um chão que não lhe é firme; de um ar que não lhe é respirável; de uma vida que não é vivida. “Se ninguém presta muita atenção ao homem do guarda-roupa, se nos acostumamos a ser invisíveis, penso agora se alguém prestará atenção a Agnes Atanassova. Somos como faxineiras e garis, mas menos, porque hierarquicamente menos importante do que esses outros invisíveis sempre mais úteis porque trabalham transformando o que é desagradável, o lixo, os dejetos, aquilo que ninguém quer ser, em algo invisível. Escondem o horror, o feio, o inacabado. Trabalham contra si mesmos, eu digo a Thomas, como eu e como ele. Tornam-se aquilo que eliminam, como eu e ele nos tornamos parte desse gesto inútil de receber e entregar o nada a ninguém.” Se a morte performática pode ser para muitos uma fuga sem volta, a fuga performática com a qual Klaus se empodera, nos revela metamorfoses possíveis, que vão além das transformações do corpo. Elas nos levam para as transformações do ser. Durante as quase seiscentas páginas, costuradas por curtos capítulos, Marcia Tiburi esculpe com uma escrita poética, com certas medidas de humor, tensão, dor e esplendor, uma viagem que nos leva para uma fuga, cuja aventura linguística só a literatura é capaz de nos proporcionar. Como disse certa vez a escritora “meus livros são um tipo de manifesto ao direito à solidão”. Se a experiência da leitura nos pede um tempo para ficarmos em companhia da nossa própria solidão, Uma fuga perfeita é sem volta, cumpre a sua missão. A viagem de Klaus nos proporciona essa fuga na direção de fora para dentro. E por essa razão, sua leitura vale a pena a viagem.

Livro: Uma fuga perfeita é sem volta

Autora: Marcia Tiburi

Editora: Record 601 páginas 2016





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