



Em uma entrevista recente, concedida a uma rádio, o escritor francês Édouard Louis, disse – entre outras coisas – a seguinte frase “Escrever é aprender a chorar”. Para ele, a escrita é um sofrimento, pois sua prática o leva a escavar as dores que guarda consigo.
Desde que comecei a interessar-me pela escrita, passei a prestar atenção nas declarações dos escritores sobre o significado e o sentido que a escrita e a literatura possuem para eles, principalmente os meus escritores favoritos, que muito me inspiram. É muito interessante perceber que há uma diversidade nos olhares de cada um deles. Enquanto para alguns, a escrita é capaz de emanar sofrimento, como nos declara o francês Édouard, para outros, ela pode ser uma espécie de “fuga” do sofrimento, como já declarou a escritora Tati Bernardi “Sempre escrevi para não ser engolida pela dor”.
Em “Filosofia Cinza – A melancolia e o corpo nas dobras da escrita”, a filósofa e escritora Marcia Tiburi aborda a escrita como uma forma de desdobramento do corpo para a filosofia “Escrever é dar corpo e lembrar o corpo dando um lugar à interferência do somático sobre os pensamentos.” Aqui, ela nos aponta uma reflexão sobre um tema tradicional da filosofia, o dualismo entre corpo e alma. Se para Hegel a filosofia podia ser considerada como o esforço do conceito, em “Filosofia Cinza”, Marcia procura mostrar que a filosofia também pode ser considerada como o esforço da escrita. A escrita como corpo a ser esculpido. E por meio desse olhar, tento entender uma declaração dada pela filósofa que muito me marcou “Escrever é como recriar o fóssil.”
Se podemos perceber a escrita como a recriação do fóssil, ou seja, a recriação de algum tipo de vestígio que se manteve preservado, porém enterrado, podemos percebe-la por conseguinte, como a escavação daquilo que se manteve preservado, mas enterrado em nós. Por isso, sua escavação pode ser tão dolorosa como nos declara Édouard Louis. Todavia, se o objeto fossilizado se manteve preservado, ainda que enterrado, não pode ser esquecido e apagado. E estando sua memória viva, certamente, ela nos solicita sua evocação para que possa se manter viva.
A escrita é um desdobramento, cujo processo se constitui na elaboração da leitura que fazemos do mundo e de nós mesmos. Sendo assim, podemos dizer que ela é uma impressão daquilo que é impresso em nossa alma. Quanto mais se escreve, mais imprimimos a nossa alma e o nosso corpo, consequentemente, vai desaparecendo diante do mundo. Talvez, por essa razão, os filósofos não tinham muita dimensão de suas existências. O que existia eram seus conceitos, impressos em livros por meio das palavras escritas. E se nos for permitido cometer tamanha audácia, assim também podemos dizer que seja o destino dos escritores.
Nesse sentido, escrever pode ser uma forma de se perpetuar através da linguagem. Se “Escrever é como recriar o fóssil”, como nos diz a filosofa, ela também pode ser a construção de um túmulo, que se pretende indestrutível em um contexto de reprodutibilidade técnica, como nos dizia Walter Benjamin, sobre as obras de arte.
Contudo, se a escrita pode ser vista como um “processo formalizador” no campo a mediar o duelo entre corpo e alma, e, se ela pode ser entendida como o desdobramento do corpo para a filosofia, sobre uma perspectiva da “Filosofia Cinza”, ouso me colocar em conformidade com a alma, da qual se constitui a escrita. Enquanto ela avança, imprimindo a alma por meio das palavras a serem rabiscadas como os traços de um desenho, o corpo vai desaparecendo, seguindo o destino da mediocridade.
Se Michel de Montaigne disse que “Filosofar é aprender a morrer” ao defender a ideia de que a morte deveria ser antecipada mentalmente, como forma de se preparar para a sua chegada, assim, podemos dizer que escrever também é aprender a morrer. Escrevemos para antecipar a nossa morte; para deixar nosso testamento, nosso legado diante da nossa frágil condição humana. Escrevemos para escavar os fósseis que nos habitam; para esculpir nosso próprio túmulo. Uma expressão da arte de desaparecer,
Marcos Eugenio